A lagartixa da ilha da Madeira na ilha Graciosa

Teira dugesii (SIARAM)
A sua particular anatomia e fisiologia (pele, temperatura variável, metabolismo baixo, fecundação interna, excreção de sal e ácido úrico, …) permite-lhes suportar longas travessias e agruras de que é singular exemplo a sua presença no arquipélago de Galápagos, situado 900 km a oeste da costa do Equador, nas ilhas Havaí, no meio do Oceano Pacífico, ou a sua chegada às ilhas Fiji e Tonga, após flutuaram um quinto do caminho à volta do mundo, terão viajado 8000 km desde a costa da América do Norte.
Tal facto justificou a exultação de Henri Drouët quando, na ilha Graciosa, descobre um lagarto, conforme descreve logo no início do seu “Rapport a sa Majesté le Roi du Portugal sur un voyage d’exploration scientifique aux îles Açores“, realizada na primavera e verão de 1857 e patrocinada pelo então Rei de Portugal, D. Pedro V: “Eu fiz na Graciosa uma descoberta com algum interesse: é um lagarto, do qual ninguém suspeitava da existência para os Açores”, reiterando mais à frente “… um lagarto muito bonito (talvez uma espécie inédita, a não ser que seja uma espécie da Madeira ou de Portugal) que descobri na Graciosa: ninguém, antes do encontro que tive, suspeitava da sua existência”.
Posteriormente no seu “Éléments de la Faune Açoréenne“, publicado em 1861, Henri Drouët já se refere ao “lagarto de Dugès (Lacerta Dugesii)“, como o único réptil terrestre dos Açores, cuja presença ele descobriu na Graciosa, e que já tinha sido descoberto anteriormente na Madeira, onde é muito comum. Mais refere que “presume-se que tenha chegado aos Açores na sequência do homem, em tempos muito recentes. O que nos faz supor isto é que este lagarto, na altura da nossa viagem, só era conhecido na Graciosa, e que ninguém nas outras ilhas parecia sequer suspeitar da sua existência. Ora, num país confinado dentro de limites estreitos e onde o reino animal é tão restrito, a presença de um réptil, se existisse há muito tempo, não deixaria de chamar a atenção dos habitantes.”

Teira dugesii (SIARAM)
Passados dois séculos atualmente a lagartixa da-Madeira (Teira dugesii) continua a ser o único réptil existente na ilha Graciosa, face embora, à boleia da carga marítima, já haja registos da presença nos Açores de exemplares de cobra-de-ferradura (Hemorrhois hippocrepis), osga-de-parede de São Vicente (Tarentola substituta) e da presença regular de osga-moura ou osga-comum (Tarentola mauritanica), tendo um exemplar desta espécie sido detetado pela primeira vez na ilha Graciosa em 2012.
Pedro Raposo (Biólogo), Serviço de Ambiente e Ação Climática da Graciosa